A existência primária do homem, a vida temporária neste mundo, se assemelha a uma bolha no imenso oceano do universo material,
e uma vez que todas as relações do homem dizem respeito à matéria, ele está, por toda sua vida, à mercê do movimento das ondas do oceano material. Todos seus sentidos estão ocupados com a matéria e seus pensamentos são influenciados pela informação sensorial. Comer, beber, erguer-se, falar, ouvir e todas as demais ações humanas, ocorrem na esfera da matéria e não na esfera do pensamento.
Além disso, ao refletir sobre conceitos como o amor, a inimizade, a ambição ou a nobreza, a pessoa chega a melhor compreendê-los traduzindo-os para a linguagem derivada dos sentidos ou dos objetos materiais, por exemplo, a atração magnética do amor, a chama da ambição ou que o ser humano seja uma “mina de sabedoria”.
A capacidade de entender o mundo dos significados, que é mais vasto do que o mundo material, varia de homem para homem. Para uma pessoa pode ser quase impossível imaginá-lo; outra pode percebê-lo somente nos termos mais superficiais, e outra, talvez consiga compreender com facilidade os mais profundos conceitos espirituais.
É possível dizer que tanto maior a capacidade do homem de compreender os significados, menos estará ele ligado ao mundo material e à sua atração, à sua aparência enganosa. Por sua própria natureza, cada pessoa possui um potencial para entender os significados espirituais e, contanto que não rejeite essa capacidade, ela poderá ser cultivada e desenvolvida.
Não é algo simples reduzir o significado de um nível de compreensão para outro sem que se perca seu sentido. O que é especialmente verdadeiro no que diz respeito aos significados que possuem grande sutileza, a qual não pode ser transmitida, sobretudo para as pessoas comuns, sem uma adequada explicação. Como exemplo, podemos mencionar o hinduísmo: alguém que reflita profundamente sobre as escrituras védicas e que estude os diferentes aspectos de sua mensagem perceberá por fim que sua meta fundamental é a adoração de um Deus único.
Infelizmente, essa meta é explicada de um modo tão complicado que o conceito de unicidade chega à mente das pessoas comuns na forma de idolatria e do reconhecimento de muitos deuses. Para evitar tais problemas, se faz necessário comunicar os significados ocultos além do mundo da matéria numa linguagem que esteja enraizada neste mesmo mundo da matéria e que seja prontamente compreensível.
De fato, algumas religiões privaram seus seguidores de direitos que a própria religião lhes havia conferido; as mulheres, por exemplo, no hinduísmo, no judaísmo e no cristianismo, a quem, em geral,
é negado o acesso ao conhecimento de seus livros sagrados. O Islam não priva ninguém de seus direitos no din, e homem e mulher, sábio ou leigo, negro ou branco são iguais no que se refere ao acesso à religião.
Deus afirma isso no capítulo 3 versículo 195: “Nunca desmerecerei a obra de qualquer um de vós, seja homem ou mulher...” E outra vez, no capítulo 49 versículo 13: “Ó humanos, em verdade vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado dentre vós, perante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é sapientíssimo e que está bem inteirado”.
Assim, o Alcorão dirige seus ensinamentos à humanidade em geral e afirma que todo homem pode se desenvolver no conhecimento, e com isso, aperfeiçoar seu comportamento. Na verdade, o Alcorão dirige seus ensinamentos especificamente ao mundo do homem. Uma vez que, como mencionamos antes, cada homem possui uma capacidade diferente de entendimento; e desde que a explicação do conhecimento sutil não ocorre sem o risco do equívoco, o Alcorão dirige seus ensinamentos primeiramente ao nível do homem comum.
Desse modo, o mais sutil dos significados pode ser explicado e idéias e sentidos múltiplos podem ser expressos às pessoas simples, estabelecendo-se correlações entre tais conceitos e os sentidos sensoriais concretos; o significado, portanto, é sempre inerente ao literal das palavras. O Alcorão se revela de um modo apropriado para os diferentes níveis de compreensão de maneira que cada um se beneficia de acordo com sua própria capacidade.
No capítulo 43 versículos 3 e 4 Deus enfatiza essa idéia: “Nós o fizemos um Alcorão árabe, a fim de que o compreendêsseis.
E em verdade, encontra-se na mãe dos Livros, em Nossa presença,
e é altíssimo, prudente”.
Deus descreve a diferença de capacidade de compreensão dos homens na seguinte metáfora no capítulo 13 versículo 17: “Ele faz descer a água do céu, que corre pelos vales, de modo mesurado...”
E o Profeta, numa famosa tradição diz: “Nós, os profetas, falamos às pessoas de acordo com a capacidade de seu intelecto”.
Outro resultado da multiplicidade de significados dentro do Alcorão é que os versículos carregam um sentido além de seu texto expresso. Certos versículos contêm metáforas que indicam a gnose divina muito além da compreensão humana, mas que, ainda assim, se tornam compreensíveis por meio de sua forma metafórica.
Deus diz no capítulo 17 versículo 89: “Temos exposto neste Alcorão toda sorte de exemplos, para os humanos, porém, a maioria o nega”.
No capítulo 39 versículo 23, se lê: “Deus revelou a mais bela mensagem: um Livro homogêneo e reiterativo. Por ele, arrepiam-se as peles daqueles que temem a seu Senhor...”
E ainda no capítulo 29 versículo 43 Deus fala da metáfora como um meio de expressão: “E estas parábolas, citamo-las aos humanos, porém, só os sensatos as compreendem”.
Por conseguinte, devemos concluir que todos os ensinamentos alcorânicos que tratam do conhecimento profundo e sutil estão na forma de similitudes.
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